Ponta Grossa

24/05/2018

Instituto Emater atua em comunidade quilombola de Ivaí

Conta a história que logo depois da abolição da escravatura, em 1888, um grupo de ex-escravos se estabeleceu nas imediações do município de Ivaí, a 90 km de Ponta Grossa. Eles tomaram posse de uma área deixada pelo antigo senhor e se estabeleceram em duas comunidades: Rio do Meio e São Roque. Ali permaneceram isolados por muitos anos, fugindo da perseguição que era imposta à população negra. No entanto, isso também lhes custou a falta de qualquer apoio oficial em suas atividades. O Instituto Emater vinha prestando assistência à comunidade há algum tempo, mas a situação mudou apenas quando a comunidade foi reconhecida como um remanescente de Quilombo e passou a ter acesso a políticas públicas do governo federal. Hoje as 28 famílias descendentes de quilombolas contam com moradias dignas, água encanada e neste ano começaram a participar do mercado local, produzindo mandioca para a merenda das escolas de Ivaí.

O caminho até chegar à situação atual foi cheio de percalços. Gilma de Farias Zimmer, do Instituto Emater de Ivaí, acompanhou os quilombolas desde o início. As primeiras ações do Instituto Emater na comunidade datam do fim dos anos 70, pela antiga Acarpa. Até então a comunidade desenvolvia atividades agrícolas sem assistência técnica governamental. A primeira dificuldade a ser vencida foi a falta de acesso. “A comunidade e os extensionistas tiveram que melhorar as estradas na picareta”, conta Gilma. Ela acrescenta também que foi preciso conquistar a confiança dos moradores. “Nas primeiras reuniões notei que a pessoa dizia um nome. Na semana seguinte a mesma pessoa se identificava de outra forma. Eles tinham medo de serem identificados, porque eram discriminados na região”, explica Gilma. Apesar das dificuldades, os extensionistas passaram a década seguinte desenvolvendo ações de saneamento, organização rural, regularização de terras e emissão dos documentos para os moradores da comunidade. Nos anos 90 a eletrificação rural chegou à comunidade.

Reconhecimento
Em 2006, o Grupo de Trabalho Clóvis Moura fez um mapeamento das comunidades negras do Paraná. Graças à professora Maria Cândida Ferreira de Lima, que mantinha cartas contando a história de seus descendentes, foi possível confirmar as origens do quilombo. O reconhecimento oficial veio em julho daquele ano, quando a Fundação Cultural Palmares aceitou o registro da Comunidade Rural Negra de Rio do Meio, como remanescente das Comunidades de Quilombos. No ano seguinte foi criada a Associação da Comunidade Negra de Rio do Meio, que reuniu representantes de 30 famílias, com o patrocínio do Instituto Sorriso Negro dos Campos Gerais, Grupo de Trabalho Clóvis Moura e apoio do Instituto Emater de Ivaí.

Menos isolada e mais miscigenada, a comunidade do Rio do Meio atualmente se parece com muitas comunidades rurais carentes do estado. Cultiva-se milho, feijão, tabaco, olerícolas e mandioca. Mas as antigas casas de madeira foram substituídas por construções do Programa Nacional de Habitação Rural. A melhoria da renda possibilitou que os moradores adquirissem alguns bens como motocicletas e carros. As crianças vão estudar em Ivaí e a mandioca passou a ser a principal atividade econômica dos moradores. Neste ano um grupo de 15 pessoas plantou um alqueire com mandioca e vendeu 4,5 toneladas da raiz descascada, picada e congelada para o Programa Nacional da Merenda Escolar, em Ivaí.
Mandioca

A Associação conta com uma Unidade de Beneficiamento Mínimo de mandioca e negocia as vendas por meio da Cooperativa de Desenvolvimento Sustentável da Agricultura Familiar de Ivaí (Coodesafi). Para Jorge Ferreira de Lima, presidente da Associação, desde que a Extensão Rural passou a atuar mais diretamente na comunidade foi possível verificar alguns benefícios como a possibilidade de os moradores participarem do mercado institucional, melhorando sua renda. Além disso, ele lembra que hoje eles contam com assistência técnica para seus plantios, luz elétrica e os títulos de suas terras, o que era inimaginável anos atrás. Para melhorar o rendimento das lavouras, o extensionista Raphael Branco de Araújo implantou uma Unidade Demonstrativa com três variedades de mandioca. A partir do comportamento das plantas, as mais produtivas serão multiplicadas e recomendadas aos moradores. A Associação também pretende comercializar outros produtos como abóbora e milho verde e conquistar mais mercado e renda para a produção do Quilombo do Rio do Meio. Comunidade e instituições públicas se juntam para dar mais dignidade a uma população que sempre lutou muito para ver seus direitos reconhecidos.
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